Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia em 2002, em sua obra "Rápido e Devagar", discorreu sobre uma das ilusões nas escolhas: a habilidade de compreender o passado, dar sentido a ele e acreditar que o futuro também será claro. Na visão do autor, as pessoas tendem a negligenciar o questionamento de suas crenças atuais e isso traz custos sociais. Tal viés comportamental é conhecido por ilusão de compreensão.
Ao observarmos o mercado de renda fixa brasileiro de 2009 a 2012, encontramos uma bela exemplificação da ilusão de compreensão. A queda do juro real para nível inferior a 3% ao ano ocorreu de forma muito rápida. O mercado se preocupou mais em construir uma boa história que abraçasse o surpreendente ritmo de convergência do que em questionar a incerteza sobre a durabilidade da nova condição. As crenças passadas perderam um tanto do sentido diante do conjunto informacional hoje disponível. O investidor ignorava eventual fragilidade dos avanços estruturais da economia brasileira e a validade da liquidez frouxa nos Estados Unidos. Assim, o alongamento das carteiras de renda fixa ocorreu sem a devida atenção à iminente inflexão do regime no fim de 2012. A guinada na tendência viria num futuro bem próximo. O juro real corrente estava, sim, fora do equilíbrio.
Outros vieses comportamentais são aplicáveis à evolução recente do mercado. O excesso de confiança na permanência da tendência de queda do juro real levou à concentração dos investimentos na renda fixa longa.
A aversão à perda por miopia veio em 2013, num misto de métricas de acompanhamento de curtíssimo prazo, decisões baseadas na sensação de perda de riqueza instantânea e objetivos de investimento de longo prazo. Os resgates passaram a ser continuados em momentos de queda mensal das rentabilidades das estratégias de renda fixa longa ou de desempenhos inferiores ao CDI.
O fechamento das taxas e os prêmios gordos induziram os três comportamentos anteriormente mencionados. Entre 2010 e o fim de 2012, a análise dos retornos acumulados do IMA-B em janelas móveis de um a cinco anos mostra períodos seguidos de desempenho muito superior ao CDI. Vários picos de rentabilidade mensal também aconteceram. Para quem investe "olhando para o retrovisor" foi uma junção "da fome com a vontade de comer". Tratava-se da fase pujante de inscrições no Tesouro Direto e de crescimento do patrimônio dos fundos de investimento e planos de previdência com estratégias atreladas à renda fixa longa.
O esforço de educação financeira para aprimorar a cultura de investimentos de longo prazo e incentivar a desindexação do CDI pode ter sido abalado. Por mais que faça todo o sentido econômico atrelar ativos de longo prazo aos passivos de aposentadoria, o meio da jornada de investimentos sofre resistência em função do alto grau de volatilidade. Crenças já derrubadas estão voltando, como indica o fluxo de captação líquida muito positivo para a caderneta de poupança e operações compromissadas. E mais: casos de alocação incompatível com a tolerância ao risco e capacidade financeira tornaram-se evidentes; resgates ocorreram mesmo a despeito das condições de portabilidade dos investimentos em previdência e de perda de benefícios tributários.
A volatilidade deve ser entendida como parte do processo. A seguir, aprendizados e constatações que devemos ter em mente para que os nossos investimentos prosperem no longo prazo:
1 - O envelhecimento do brasileiro vai se prolongar, o que exigirá maior duração das reservas. O esforço de poupança será mais determinante do que a rentabilidade para o alcance dos objetivos de investimento de longo prazo;
2 - Os mais conservadores correm o risco de perder para a inflação. É um risco oculto que pode ser percebido tarde demais;
3 - Renda fixa longa não combina com reserva de liquidez;
4 - Tomar decisões de curto prazo com base no acompanhamento diário ou mensal de estratégias com maturação de longo prazo pode ser muito ineficiente. Existe assimetria de informações no mercado e há chance real de entrar na alta (das cotas) e sair na baixa quando o investidor está tomado pela impaciência. A rentabilidade passada ajuda somente a melhorar a noção de riscos;
5 - Os níveis atuais dos cupons dos títulos atrelados à inflação estão atrativos para a alocação gradual com horizontes de longo prazo vis-à-vis o juro neutro estimado;
6 - Diversificar é preciso também dentro da classe de ativos renda fixa.
O ano de 2014 será desafiador para os mercados diante dos impactos dos próximos passos do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e do processo eleitoral no Brasil. A posse de Janet Yellen à frente do Fed pode ser o começo de um período menos instável para os mercados de renda fixa em nível global. A essência de Yellen, bem como a de personalidades bem-sucedidas no mundo financeiro (Warren Buffett é um dos exemplos), está relacionada à paciência nas escolhas para a obtenção de resultados consistentes. Que 2014 seja um bom exemplo de resistência a ambientes turbulentos para os investidores com objetivos de longo prazo!
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