O estabelecimento de metas financeiras é uma das questões mais discutidas no âmbito das finanças pessoais. Observa-se, porém, que mesmo entre as pessoas de maior poder aquisitivo, essa preocupação atinge apenas uma pequena parcela delas.
Nunca é demais insistir sobre a importância da definição de metas financeiras, não somente para atingir objetivos pré-estabelecidos, mas também como forma de impor um maior disciplinamento na gestão dos recursos próprios. O objetivo deste texto, entretanto, não é explorar a importância desta definição de metas, mas a conscientização quanto à necessidade de flexibilizá-las e reavaliá-las periodicamente.
Essa contínua reavaliação pode ser analisada a partir das três varáveis associadas ao estabelecimento de metas: objetivos a serem perseguidos, capacidade mensal de poupança e rentabilidade gerada pelos recursos acumulados.
No que se refere aos objetivos, é importante destacar que os mesmos tendem a se alterar ao longo da vida das pessoas. No início da vida profissional, normalmente, o primeiro objetivo está associado à compra de um automóvel, e depois vai evoluindo para a aquisição da casa própria e, muitas vezes para o imóvel de lazer. Após muitas conquistas, observa-se que muitos profissionais perigosamente se “desligam” de suas metas, achando que sua vida profissional é eterna. Normalmente isto ocorre numa fase de elevado padrão de custos, até mesmo como conseqüência dos bens materiais adquiridos.
A consciência da aproximação da aposentadoria (e de que, portanto, a vida profissional é finita) e a preocupação em manter o padrão de vida após o encerramento da carreira, levam a tentativas de elevações bruscas das metas, com o objetivo de “tirar o atraso”.
Quanto à poupança mensal, já foi destacado em artigos anteriores, a importância de se manter um adequado controle das despesas, até porque a receita é mais “transparente”. Na realidade, a maior parte das pessoas “acha” que gasta muito menos do que realmente gasta.
Nesse contexto, vale destacar que a poupança tende também a se alterar porque não somente a receita muda, mas também a despesa ao longo do ciclo de vida. Assim, é normal que profissionais vão evoluindo na carreira, atingindo níveis crescentes de remuneração até alcançar o “pico” ao redor dos 40/45 anos, estabilizando-se a partir daí. No Brasil, embora em escala cada vez menor, verifica-se que muitos profissionais ficaram caros e tiveram que se adaptar a reduções do nível de renda, principalmente aqueles alocados em setores mais expostos à concorrência internacional.
Da mesma forma, do lado das despesas, sua estrutura também tende a se alterar ao longo da vida, quando normalmente ocorre casamento, nascimento dos filhos, educação dos mesmos e até a aquisição de novos bens (automóveis e imóveis) que elevam o nível da despesa.
O terceiro elemento deste tripé, a rentabilidade dos recursos acumulados, é o caso mais flagrante da situação recente da economia brasileira. As taxas reais de juros caíram de cerca de 6% ao ano ( chegaram a mais de 10% a.a. no início dos anos noventa) para cerca de 1% a.a., com forte impactos sobre a rentabilidade dos ativos de baixo risco. Isto afetou decisivamente os poupadores em situação de pré-aposentadoria que imaginavam obter rendimentos de cerca de 0,5% ao mês para custear a nova etapa da vida. Estas pessoas tiveram que reavaliar substancialmente suas metas: ou trabalham mais tempo para acumular mais recursos, ou passam a correr riscos com suas reservas acumuladas em busca dos 0,5% a.m., ou reduzem seu padrão futuro de vida.
Todo esse conjunto de fatores parece ser suficiente para mostrar a necessidade de se reavaliar periodicamente as metas financeiras. Nesse contexto, algumas questões devem sempre ser observadas pelos investidores:
a) Nunca fixar metas irrealistas, pois levam à frustração e podem comprometer até mesmo o salutar hábito da poupança.
b) Quanto mais cedo começar a estabelecer metas, melhores serão os resultados.
c) Não se “acomodar” em períodos de remuneração mais elevada e de muitas conquistas materiais; a vida profissional, alem de ter “prazo de validade”, pode ser muito volátil.
d) Lembrar o que estabelece a teoria econômica: o consumo tende a aumentar com a elevação do nível de renda, mas a relação não é a mesma quando a renda cai; tentativas de manter o padrão de vida dificultam a queda do consumo.
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